Defensoria da União pede que livro do MEC saia de circulação

 

A Defensoria Pública da União no Distrito Federal (DPU-DF) ajuizou ação civil pública na qual pede que seja retirada de circulação cerca de 485 mil exemplares do livro de língua portuguesa Por uma Vida Melhor, destinado a alunos de educação de jovens e adultos (EJA) pelo Ministério da Educação (MEC). Segundo a defensoria, a obra considera “válido o uso da língua popular, mesmo que com erros gramaticais”.

Segundo o órgão, o defensor público federal Ricardo Salviano, autor da ação, afirma que as “incorreções” e “informações confusas” do livro podem dificultar o pleno desenvolvimento dos estudantes e impediriam a inclusão social. “Não se pode partir da premissa de que se deve permitir que o aluno fale errado para ensiná-lo a escrever de forma correta. A retórica da argumentação é ilógica”, diz o defensor, que afirma ainda que o uso da “norma culta” deve sempre prevalecer.

Haddad defende livro didático
O ministro da Educação, Fernando Haddad, defendeu o livro. Para o ministro, acusação de que o livro “ensina a falar errado” é um equívoco. “O livro parte da situação da fala, mas induz o jovem a se apropriar da norma culta. Os críticos infelizmente não leram o livro, fizeram juízo de valor com base em uma frase pinçada do contexto”, disse Haddad durante entrevista ao programa de rádio Bom Dia, Ministro.<

“Quando um jovem manda mensagens no seu Twitter, no seu e-mail ou Orkut, ele faz uso da linguagem habitualmente utilizada naquele ambiente, até de maneira lúdica, ele modifica a língua e cria sinais próprios. Ali também tem norma e para você entender tem que se familiarizar com determinados padrões. Mas ele sabe que se migrar para um ambiente formal, seja uma entrevista de emprego ou uma prova da escola, a linguagem não será apropriada”, afirmou.

Confira abaixo trechos do livro criticado:
“É importante saber o seguinte: as duas variantes (norma culta e popular) são eficientes como meios de comunicação. A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros”.

“‘Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado’. Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’.’ Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

“Na variedade popular, contudo, é comum a concordância funcionar de outra forma. Há ocorrências como:

Nós pega o peixe. – nós (1ª pessoa, plural); pega (3ª pessoa, singular)

Os menino pega o peixe. – menino (3ª pessoa, ideia de plural – por causa do “os”); pega (3ª pessoa, singular).

Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.

“É comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão linguística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunicação cotidiana”.

“A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta. Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal”.

 

Terra Notícias

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