Queres ser escritor?

 

Texto de Cassionei Niches Petry  (cassio.nei@hotmail.com ) publicado originalmente na Gazeta do Sul

Gosto de ler críticas negativas, mas fico incomodado quando elas partem de quem, ao que parece, não entendeu a obra analisada. Quando se percebe que o problema não é do livro, mas de quem o lê, fica aquela sensação de que o crítico deveria se calar. Digo isso porque li uma resenha injusta sobre a coletânea de ensaios e crônicas Para ser escritor, de Charles Kiefer (Editora Leya, 160 páginas), e me senti no dever de fazer a minha leitura defendendo, de certa forma, a obra.
Quem, como esta “traça” que vos escreve, tem um desejo tremendo de se tornar escritor, não vai encontrar no livro um manual de instruções de como se tornar um novo Machado de Assis, mas sim reflexões sobre o ofício, escritas por um autor consagrado das letras gaúchas. Além de ter escrito clássicos como Caminhando na chuva, Kiefer mantém uma oficina literária, é doutor em literatura e conhece como poucos o mercado editorial. Os textos foram em boa parte publicados no seu blog e em coletâneas anteriores, como O guardião da floresta. Escritos numa linguagem leve, mas repletos de informações, e fazendo uma ponte entre a linguagem literária e a teórica, os textos reforçam no aspirante a escritor o desejo de se tornar um autor, ou provocam a dúvida se é esse realmente seu caminho.
No primeiro texto, que dá título ao livro, Kiefer diferencia o escritor, o autor e o profissional da literatura. “Um escritor somente é escritor quando menos é escritor, no instante mesmo em que tenta ser escritor e escreve.” Depois disso ele é o leitor de si mesmo; mais adiante ele sonha com a glória; por fim, precisa pôr as asas no armário e fazer de tudo para vender o peixe. Nessa afirmação, ele se distancia um pouco da ideia de que o escritor é somente aquele que publica, porém o texto tem um tom de crônica literária, o que não permite dizer que essas afirmações são categóricas, como afirmou a injusta crítica a que me referi. A autora da resenha pensou que o livro fosse algum tratado teórico e apontou algumas incoerências. Pedir coerência para um ficcionista é pedir que ele abdique do fazer artístico, pois a arte é, por essência, incoerente.
Há na coletânea reflexões sobre a brevidade dos contos na era da internet, sobre os blogs, as oficinas literárias, noites de autógrafos, o uso de adjetivos – às vezes condenado, outras vezes necessário –, concursos literários, conselhos de mestres como Mário Quintana, títulos, leituras de originais, o plágio, ética, o acordo ortográfico, etc. Mas são os textos sobre a criação literária e a leitura, como não poderia deixar de ser, os que mais se destacam. 
Em Literatura e solidão, Kiefer revela a angústia do escritor quando percebe que não é lido e “que escrever é um gesto completamente inócuo e onanista”. Ou seja, quem escreve quer ser lido, mas, muitas vezes, sua criação não leva a nada e acaba servindo apenas para sua própria satisfação. Em Um prazer anárquico, o autor questiona: nós, professores, que reclamamos que os alunos não leem, não estaríamos “querendo deles um modelo de leitura que já não são capazes de realizar”? E se “lhe oferecêssemos um banquete de múltiplos e simultâneos objetos de leitura”, inclusive Paulo Coelho?
Charles Kiefer levanta as questões. Cabe ao leitor e provável escritor respondê-las.

Cassionei Niches Petry é professor e mestrando em Letras, com bolsa do CNPq, mas queria ser apenas leitor e escritor. Mantém um blog, cassionei.blogspot.com, e escreve quinzenalmente o Traçando Livros.

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