Hitler–um leitor fanático que lia um livro por dia

Entrevista do escritor norte-americano Timothy Ryback ao portal P2 – matéria de Maria João Guimarães.

Adolf Hitler dizia ler um livro por noite e, quando morreu, a sua biblioteca tinha mais de 16 mil livros.Mas o ditador alemão colocava no mesmo plano westerns populares e tratados militares; misturava filosofia séria e panfletos antissemitas, diz Timothy Ryback, autor de A Biblioteca Privada de Hitler.

Ryback, jornalista freelance que escreveu para o jornal New York Times ou a revista New Yorker, acadêmico que ensinou História na Universidade de Harvard, e escritor, autor ainda de um livro sobre o campo de concentração de Dauchau, lançou-se no estudo dos livros do ditador. Escrutinou os 1200 livros que sobraram e que estão na Biblioteca do Congresso, em Washington (que tem a maior parte da coleção), e na Universidade Brown, em Providence, à procura de dedicatórias, sublinhados, notas.

Costumamos pensar na literatura como algo que tem o poder de abrir horizontes e de nos tornar, de alguma maneira, pessoas melhores. Este livro pode ser deprimente para quem pense assim?

Sim, o livro deixa-nos de fato a pensar nisso. A civilização ocidental tem uma forte noção de que a leitura, a educação, a literatura, nos dão mais conhecimento e fazem do mundo um lugar melhor. E com Adolf Hitler acontece exatamente o contrário. Esse homem usou a literatura, usou a história, usou a filosofia para inspirar algumas das mais horríveis ações já cometidas por seres humanos. Mas suspeito que Hitler não era a única pessoa má com uma biblioteca.

Como é possível ver a influência dos livros nos líderes? No caso de Hitler, as leituras parecem ter servido mais para confirmar as suas ideias, e terem sido menos uma força que o moldou, como afirma no livro?

Há ambas, validação e influência. Acho que houve três tipos de livros na vida de Hitler. No início, alguns livros ajudaram a moldar a sua pessoa. Ele adorava livros de aventuras, como As Viagens de Gulliver ou Robinson Crusoé. Outros influenciaram a sua ideologia, como um livro de Madison Grant, The Passing of the Great Race, cuja influência se vê em discursos posteriores. A terceira categoria são os livros que Hitler explorava para os seus próprios objetivos. Nietzsche e Schopenhauer, por exemplo, são associados a Hitler. Não creio que ele tenha tido a capacidade intelectual para os ler e perceber. Mas pegava em frases e ideias, escolhendo as que lhe convinham, para alimentar a sua ideologia. Fazia o mesmo com a Bíblia: os discursos de Hitler estão cheios de alusões religiosas. Ele explorava estas obras e escolhia os pedaços que lhe convinham.

Hitler fazia anotações a lápis, na maioria sublinhados, nos livros. O que se pode deduzir do seu estilo de anotações?

Consegue-se ver um padrão do modo como ele lia, sublinhando frases e decidindo ignorar partes. Em Mein Kampf [a autobiografia e manifesto político de Hitler] ele dedica uma seção à arte de ler, dizendo que quando as pessoas leem muitos livros isso deixa a sua mente numa confusão. Ele lia com uma noção pré-concebida e tirava dos livros o que servia para a alimentar. Isto não é aprender, é pilhar e explorar.

Hitler só estudou até aos 15 anos. Esta necessidade de ler era uma compensação para a sua falta de formação acadêmica?

Sim. Hitler foi um leitor fanático toda a vida, e por trás deste apetite voraz havia uma incrível insegurança intelectual. Mas não tinha capacidade crítica para distinguir entre filosofia séria e tratados tendenciosos, antissemitas. Tratava tudo como tendo valor igual. Dizia-se que durante a I Guerra Mundial Hitler levava as obras completas de Schopenhauer para a frente. Duvido: são 2800 páginas, e ele nem sabia escrever corretamente o nome de Shopenhauer [colocava um “p” a mais].

(link para a matéria original)

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