Livro premiado retrata vida de travesti e militante gay no sertão nordestino

Prêmio Esso de Jornalismo, “Os Sertões – Um livro-reportagem de Fabiana Moares” revisita os cenários narrados por Euclides da Cunha e revela que a diversidade supera o estereótipo do “cabra-macho”.

A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), em parceria com o Jornal do Commercio, de Recife (PE), lança Os Sertões, projeto da jornalista Fabiana Moraes, vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo em 2009. O livro-reportagem é uma compilação da série feita para a ocasião do centenário de morte do escritor Euclides da Cunha, após a equipe ter percorrido quase cinco mil quilômetros para revelar a atualidade do sertão, descrito pelo imortal ainda nos primeiros anos do século XX, logo após a Guerra de Canudos.

Entre os diversos tipos do homem sertanejo contemporâneo, Fabiana descobre que há espaço para aqueles que não representam o icônico vaqueiro “cabra-macho”: a travesti Lohanne e o militante gay Pedro. Da Bahia até o Ceará, Fabiana Moraes e o fotógrafo Alexandre Severo revelaram um novo sertão encontrado nos locais registrados por Euclides, onde hoje convivem sem-terras, cantadoras de incelências, padres celebridades, ativistas, pirateiros, milionários, beatos e b-boys. Entre essas personagens está Lohanne, também conhecida por “Lourinha”, que, apesar ser o furor entre os homens de Santa Terezinha (PE), nasceu Jaílson. Na cidadezinha de 10 mil habitantes, a ex-cabeleireira chama mais atenção do que a Igreja Matriz, o Açude do Virgulino e a Cachoeira do Quati – orgulhos turísticos do município. É a mais cobiçada entre as mulheres que frequentam todos os sábados a danceteria Raul’s Night Club, mas seu auge foi ter sido eleita Miss Gay 2007 em Patos, Sertão da Paraíba. “Aqui não acontece nada”, diz Lohanne, entre tímida e entediada. “O que sobra para um travesti? Tem de trabalhar em salão ou se prostituir. Aqui não tem oportunidade”, reclama a menina que vê nas lan houses sua janela para um mundo fantástico, porém, que ainda exige a escolha entre “homem” e “mulher” para definição de gênero nos cadastros das redes sociais. Outra surpresa é Pedro, professor da rede pública de ensino. Gay, provou ser um dos mais fortes sertanejos numa cidade pernambucana de 23 mil habitantes. Para fundar a Associação de Homossexuais, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de Tabira (Tabirah), enfrentou a fúria de padres e políticos locais que consideram ser “veado” uma “vergonha social”. Vereadores da cidade reconheceram sua ONG como de utilidade pública e a Universidade Federal Rural de Pernambuco lhe convidou para ser tutor no curso de Gênero e Diversidade Sexual na Escola, mas a sexualidade de Pedro continua a ser um tabu para a família. “Sair do armário é muito mais difícil no interior. Quando você sai, leva a família toda”, diz o ativista, que já viu um colega, também gay e professor, ser expulso da sala pelos próprios alunos. Um ano depois Nesta edição de luxo, Fabiana revisita alguns dos personagens – como o traficante André, de Belém de São Francisco, ou a vaqueira Soneide, de Floresta, ambos municípios de Pernambuco – e se depara com novas histórias daqueles que deixaram a região para ganhar a vida em outro estado ou que morreram esquecidos, em um canto da própria casa.

Com prefácio assinado pelo escritor cubano Pedro Juan Guiterrez – autor do best-seller “Trilogia Suja de Havana” –, o livro traz imagens extras de Heudes Régis, que registrou a atual realidade dos personagens, e novos textos de Schneider Carpeggiani, que mostra a região a partir da ótica da literatura nacional. A designer Yana Parente, que recebeu o Prêmio Esso de Design Gráfico quando a reportagem foi publicada pelo JC, é novamente a responsável pelo projeto gráfico.

Sobre a autora

Fabiana Moraes é jornalista cultural, doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde desenvolve pesquisa sobre a relação entre mulheres de periferia e revistas de celebridades. Recebeu seu primeiro prêmio em 2000, como repórter revelação pela Comissão Europeia de Turismo. Em 2007, recebeu o Prêmio Esso regional pela série A Vida Mambembe.

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